
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Eu sei que não vem aproposito, mas senti me inspirado e escrevi este pequeno texto:
ResponderEliminarEpifania do Infeliz
Eu olho a rua, vejo os casais felizes, os velhos lembrando os seus tempos, as crianças abstraidas de tudo brincando. Sei onde estou, estou escondido, à espera da felicidade, ajo como se fosse infeliz, mas na verdade esta infelicidade é mais como que uma não felicidade. Pergunto-me, porque não posso ser como eles, feliz? E depois apercebo-me, que não o quero, tenho medo, esse novo sentimento, então, constragido com o medo de ser feliz, não o sou, e estou escondido... A verdade é que a infelicidade, não é assim tão grande, mas para além de feliz, que há mais neste mundo para ser, senão infeliz?
Henrique o Figueiredo